Peguei meu filho de 10 anos acessando sites de pornografia. E agora?

14/10/2015 10:34

Antes de tudo, perante toda criança ou adolescente que demonstra interesse em conteúdo sexual inapropriado para a idade, deve-se considerar a possibilidade dela estar sendo vítima de abuso sexual. Uma vez afastada essa hipótese, é importante compreendermos um pouco sobre o desenvolvimento sexual normal nas faixas etárias em torno da questão e da curiosidade em sites ou revistas de pornografia. 
Na fase de 2 a 6 anos, a criança forma sua identidade de gênero e assimila seu papel sexual na sociedade - aprende a ser menino ou menina. É também a fase dos porquês, na qual ela aprende sobre as partes do seu corpo, apresenta curiosidade sobre si mesma e os outros, que pode se manifestar com episódios da masturbação, o “brincar de médico” (aceitável com crianças da mesma idade) e afins. Bom momento para ensiná-la sobre conceitos como intimidade e público versus privado.
Dos 6 aos 10 anos é o momento no qual ela fortalece essa identidade de gênero e se prepara para a puberdade, estando em constante observação, super curiosa e assimilando diversos valores relativos às situações a que são expostas (confiança x desconfiança, responsabilidade x irresponsabilidade, respeito x desrespeito, honestidade x desonestidade, etc...). A “brincadeira de médico” continua, e outras como cócegas, “papai e mamãe”, pegar nos genitais dos colegas, como brincadeira, podem surgir. É normal, nesta fase, que ele tenha curiosidade sobre o que é sexo e é muito importante que os pais participem desse momento da educação dos filhos, por mais difícil que seja aceitar que eles já tenham interesse neste assunto. Sempre bom lembrar que é um período de formação de idéias e atitudes sobre diversos assuntos- até a reação do pai ou da mãe perante a descoberta do fato pode pautar como ele pensará sobre sexo mais tarde. 
Pesquisas sobre exposição de jovens e adolescentes masculinos a pornografia têm mostrado como resultado objetificação, dessensibilização e diminuição de empatia por mulheres. Não apenas pornografia, mas a forma como a mídia de grande público expõe sexualidade tendem a passar uma noção de sexo como uma mercadoria, um objeto de desejo, sem comprometimento, conexão ou consequências. Já parou para pensar que essa pode acabar sendo a primeira impressão que as crianças venham a ter sobre sexo? 
É importante abordar o tema de forma a deixar a porta aberta para o diálogo, mantendo calma e estabilidade emocional a fim de minimizar a sensação de vergonha que seu filho comumente estará sentindo ao ser abordado a respeito da situação, e deixá-lo o máximo confortável para falar sobre o assunto. Não é uma emergência - espere e elabore sua abordagem até que você se sinta confortável para a conversa. Evite ser taxativa e usar termos negativos. Encoraje uma visão boa e saudável sobre sexo, e diga a ele que você quer que ele tenha sexo saudável e divertido, quando se tornar adulto. Pergunte a ele o que ele viu, e se tem dúvidas a respeito, por exemplo, “Você viu algo que te assustou ou te deixou confuso?”. Apesar do desconforto, tente agir com naturalidade, e esteja preparada para responder às suas questões de forma clara e objetiva o suficiente para satisfazer sua curiosidade. Inventar ou usar fantasias como a história da cegonha pode confundi-lo e/ou afastá-lo ainda mais. 
Uma vez esclarecidas as dúvidas, estabeleça suas regras e limites. Uma dica é permitir o uso de computadores e tablets apenas em áreas comuns da casa. Atualmente, há também diversos aplicativos disponíveis que restringem a navegação em determinados tipos de sites. 

(Emmalie Ting, Médica pediatra e colaboradora da página Esse Mundo Digital)

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